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​Que Sabor A Vida Tem?

08.09.2015

Acompanhei no dia de hoje a alta hospitalar do meu pai depois de 60 dias num hospital, sendo que desses, 57 na UTI.

Recebemos inúmeras orientações e recomendações, algumas medicações de uso contínuo foram alteradas e - por fim - recebemos o médico que nos alertou sobre alguns cuidados a serem tomados na rotina diária. 

Em meio às orientações, surgiu um dado importante: meu pai, que estava recebendo a alimentação via 'gastrotomia' (um pequeno orifício aberto acima do umbigo que possibilitava acesso direto ao estômago por meio de um pequeno catéter que é utilizado para ministração de alimentação enteral quando o paciente tem problemas com a sonda naso gástrica), se alimentaria dessa forma INDETERMINADAMENTE. Questionei se era irreversível aquela condição e ele foi claro: esses quadros são progressivos e não regressivos.

Olhei pra cadeira onde meu pai estava sentado e por um breve momento pensei: meu pai nunca mais irá comer as coisas que sempre lhe deram prazer.

Fiquei imaginando como seria sentir o cheiro de um feijão preto com louro sendo preparado numa panela de pressão ou forno a lenha sem que seja degustado. Passar perto de uma churrascaria, salivar e não satisfazer o desejo. Sentir o aroma de um abacaxi pra lá de doce e 'passar a vez'...enfim, como seria de agora em diante a comida saborosa, apetitosa, que satisfaz ao paladar não mais fazer parte da rotina do meu pai?

Por fim me questionei: e se fosse comigo? Como seria viver sem o sabor da comida? A vida perderia o sabor? Afinal, que sabor a vida tem?

Percebi que, embora seja extremamente frustrante nunca mais sentir o gosto de uma jaboticaba docinha, ou qualquer outro prato que - só de imaginar - me faça ficar com a boca cheia d'água, confesso que ponderei a nossa capacidade de saborear outras experiências. A comida tem muito de simbolismo afetivo. Ingerimos também a afeição que nos foi preparada num prato. É preciso ressignificar então os afetos, sentar à mesa da comunhão, partilhar o pão da troca, da percepção da presença - mesmo na ausência física.  É preciso saborear as risadas, é preciso absorver os nutrientes do amor e do cuidado, é preciso apreciar o toque. 

Existem inúmeros alimentos que nutrem a nossa alma, que tiram a acidez dos dissabores. A vida tem sabor de renovação, a vida tem sabor de esperança, a vida tem sabor de experiências e momentos. A vida tem sabor de votos, a vida tem sabor de compaixão, a vida tem sabor de um 'gosto de quero mais': quero mais vida pra viver!

Que o meu amor te satisfaça, meu pai!

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